domingo, 1 de fevereiro de 2015

Síndrome de Estocolmo Política



Do ponto de vista psicológico, Síndrome de Estocolmo é o nome dado a um estado particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de humilhação, agressão, exploração - e todo e qualquer tipo de intimidação - passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade por seu algoz. 
No prisma político, os termos esquerda e direita apareceram durante a revolução francesa. Os membros da assembléia nacional se dividiam entre os que estavam a favor do rei à direita do presidente e os que defendiam as necessidades básicas do povo à esquerda.
Isto posto, podemos afirmar que ser de esquerda, ontem, hoje e sempre é defender o lado dos menos favorecidos, discordar da exclusão social, ficar indignado com toda forma de preconceito, de injustiças e lutar contra as desigualdades.
Por outro lado, ser de direita é estar do lado das classes dominantes, portanto, tolerar injustiças, aceitar que o mercado está acima da vida humana, encarar a miséria como algo inevitável, julgar que existem sim, pessoas e povos superiores a outros.

Chegamos portanto, no ponto que dá título a esse texto: O que seria a Síndrome de Estocolmo Política?!
Bem, todos nós conhecemos pessoas (e não são poucas) que mesmo estando em condições de pobreza e/ou exploração por parte de seus patrões e senhorio,dizem ser politicamente de direita. Devemos salientar, que foi a esquerda (ou através dela) que surgiram as leis trabalhistas, redução de jornada de trabalho, participação feminina mais efetiva na sociedade, entre outros itens que só vieram beneficiar o lado mais fraco da pirâmide social.
Ora, portanto, ser um pobre de direita não faz o menor sentido, estar do lado dos interesses das classes dominantes só pode caracterizar um truque da psique, para que ele, como vítima possa suportar situações de humilhação e exploração e ainda ter o afeto por seu agressor.
O pobre de direita, começa a identificar-se com seu algoz, como mecanismo de defesa e por medo.
Vale lembrar que todo o processo (que muitas vezes leva uma vida inteira) ocorre sem que a vítima tenha consciência disso.

Mas você, esse broto antenado que lê este texto neste momento usando o Wifi no ipad enquanto consome seu Tall Latte da Starbucks, não tem nada com isso não é mesmo? Você se sente inebriado pela imagética européia das campanhas publicitárias e o padrão de consumo estado-unidense: Você preza pelo look do momento que você adquiriu lendo efusivamente as bíblias trend setters da humanidade: Bye bye Marlu Modas.  Hello, Forever 21. Lanche, claro, é coisa para desavisado: Você consome um snack gourmet no food truck mais próximo, enquanto lê reportagens sobre as barganhas incríveis que se podem adquirir nas suas próximas (e sonhadas) férias na Disneyworld: abrigos esportivos fabricados no Camboja por seis dólares! Como você se sente esperto:  Sem ter dado um passo, você se tornou  'um cidadão do mundo', muito mais civilizado, antenado, descolado - que maravilha!

Até que um dia você, através da sua Samsung Experience rigorosamente paga em 12 prestações mensais no Magazine Luisa, assiste, na sala de seu loft, a uma reportagem que afirma que o seu país (aquele lá, da Marlu Modas) é a sexta maior economia do mundo e que, por isso, o PIB brasileiro per capta é de USD$4000,00. E olha que os 'especialistas' consideram esse número baixo.
Quatro mil doletas- você pensa- mais ou menos 10.000,00 reais. Por pessoa. No país da Marlu modas (isso deve estar errado...). e então você faz muito rapidamente as contas e percebe que seus muito suados R$4.000,00 mensais (conseguidos arduamente depois duas graduações e um MBA business que lhe custou os rins) equivalem a 1.600,00 dólares ou 9,09 por hora. Neste momento, queridão, você percebe que toda sua esperteza de 'cidadão do mundo' lhe rende menos que um salário mínimo norte-americano.
Você se sente meio besta, meio desajeitado. Lembra do zum zum zum geral na confraternização de  fim de ano da empresa (multinacional, que você trabalha) causado pela afirmação do seu chefe, meio bêbado, dando em cima da mulher do RH, dizendo que casa dele na  praia de Maranduba  tem 14 suítes. Mas ah! Isso é coisa do câmbio. E tem mais: É tudo culpa do PT. Não sei bem o que é, mas é tudo culpa do PT.
Você, trabalhador de classe média assalariada, bem treinadinho pelas 44 horas de publicidade semanais engolidas a tapa, sente-se obrigado a consumir o que não precisa para se encaixar na sociedade de consumo. Discutir salário mínimo é coisa pra pobre. E petralha. Nós, seres iluminados por um spot light estrategicamente colocado em nossas varandas gourmets, queremos consumir abrigos  esportivos em grandes cadeias de varejo por seis dólares em nossas férias na Disney e comprar uma Samsung Experience em doze prestações. Nós somos antenados. Descolados. Cidadãos do mundo. Temos que ter a última novidade antes daquele cunhado que se esfalfou todo com o carrão novo no último natal. Ele também não discute salário mínimo. Ele é esperto.
Portanto meus caros, acabamos de lhes apresentar a Síndrome de Estocolmo Política.

 Carlos de La Parra e Christina Zaccarelli